top of page




Almerinda Farias Gama
Alagoana, jornalista, sufragista negra, feminista e nordestina é reconhecida e motivo de inspiração para o país.
Almerinda Farias Gama nasceu em Maceió no dia 16 de maio de 1899. Filha de José Antônio Gama e de Eulália da Rocha Gama. Com a morte de seu pai em maio de 1907, sua mãe, Eulália, sem condições de manter os filhos, decidiu mandá-la junto a seus dois irmãos para serem criados por uma tia em Belém do Pará. Foi nessa condição que Almerinda deixou Maceió, aos oito anos de idade. Nesse período, aprendeu em casa algumas artes das chamadas prendas domésticas: corte, costura e música. Entretanto, mesmo sem escola formal, estudava com a tia e lia muito, o que a levou a escrever poesias e contos para os jornais de Belém. Em 1919, com 20 anos de idade, teve seu O Milagre de Natal premiado com o terceiro lugar no concurso Um Conto de Natal, do jornal Estado do Pará. Em 1920, após receber a herança do pai, passou a estudar na Escola Prática de Comércio em Belém. Em março de 1921, cursando o 3º ano, foi premiada por sua aplicação nos estudos. Seu desempenho era tal que a partir do 2º ano já trabalhava como monitora na Escola, o que lhe permitia pagar seus estudos. Casa-se em março de 1923, com um primo, escritor, poeta e jornalista, Benigno Farias Gama, também alagoano, com quem teve um filho, mas o bebê não viveu muito tempo. Seu esposo faleceu em dezembro de 1925. Em fevereiro de 1929 desembarcou no Rio de Janeiro em busca de sua realização profissional e artística, já utilizando o nome de Almerinda Farias Gama. O primeiro registro em jornal da presença da alagoana no Rio de Janeiro ocorreu em 7 de março de 1930 no Diário da Noite. Revela uma Almerinda já envolvida com as lutas lideradas pela Federação Brasileira Pelo Progresso Feminino (FBPPF). Já identificada como liderança desta categoria, participou, em junho de 1931, do II Congresso Internacional Feminista, no Automóvel Club, no Rio de Janeiro, organizado pela FBPPF. O Congresso foi instalado em 20 de junho de 1931 com a presença de Getúlio Vargas. Almerinda Farias Gama foi citada nos jornais como representante da filial da FBPPF em Alagoas, “segundo as credenciais”: “Alagoas — Almerinda Farias Gama”. Estimulada por Bertha Lutz, criou e foi a primeira presidente do Sindicato dos Datilógrafas e Taquígrafas (foi reconhecida somente em 1933). O citado jornal havia promovido uma enquete para saber dos leitores se as mulheres poderiam pertencer à Academia Brasileira de Letras. O acadêmico Humberto de Campos respondeu que não e quem contestou seus argumentos foi a “sra. Almerinda Farias Gama, escritora do Norte, colaboradora do ‘Estado do Pará’, da ‘Folha do Norte’, do ‘Correio do Pará’, da ‘Belém Nova’ e outras publicações”. Na carta publicada, Almerinda diz que “esperava uma opinião favorável ou, quando menos, uma justificação eruditamente fundamentada, para apoiar o seu voto contrário ao ingresso da mulher no cenário das letras”. Participou da eleição de deputados classistas em 20 de julho de 1933. Atraída por pautas como a de igualdade salarial defendidas pelas associadas, teve efetiva participação. Entre as muitas funções que desempenhou na federação, era o "elemento de ligação" entre a entidade e a imprensa carioca. Almerinda atuava em várias frentes e estava empoderada por ser datilógrafa. Em paralelo, teve uma trajetória importante como sindicalista. Ajudou a fundar e foi a primeira dirigente do Sindicato dos Datilógrafos e Taquígrafos do Distrito Federal. Como líder sindical, foi a única mulher a votar como delegada eleitoral na Assembleia Nacional Constituinte de 1933. A Constituinte elaborou uma nova Constituição, que entrou em vigor em 1934, consolidando o voto feminino – uma conquista do movimento feminista da época. Na eleição de 1934, Almerinda e a professora Antonieta de Barros, a primeira mulher negra eleita (como deputada estadual de Santa Catarina) foram as primeiras mulheres negras a concorrerem a cargos eletivos no Brasil. Terminada a etapa de escolha dos deputados constituintes sem que a Federação Brasileira Pelo Progresso Feminino conseguisse eleger nenhuma mulher (a única mulher eleita foi a médica paulista Carlota Pereira de Queiroz), Almerinda imediatamente se prepara para disputar uma vaga de deputada federal nas eleições convocadas para 14 de outubro de 1934. Por sua iniciativa foi cria a Ala Moça do Brasil, uma nova “e próspera associação, de cunho social e político, cuja irradiação vai dia a dia aumentando em todos os sentidos” (Jornal do Brasil de 24 de novembro de 1933). O lançamento ocorreu no dia 28 daquele mês, às 19h30, na Av. Suburbana, nº 3.618, sede da Ordem Mística do Pensamento. Contou com a presença do Centro Cívico 4 de Novembro, dos Eleitores Livres de Madureira e de partidos políticos e outras associações. A Ala Moça do Brasil preconizava em seus estatutos “trabalhar politicamente” pela unidade da Pátria, liberdade de pensamento, desenvolvimento cívico dos brasileiros, adoção da legislação do divórcio, laicidade do Estado e do ensino e pelo amparo legal ao trabalhador de todas as classes. A diretoria eleita e empossada foi a seguinte: presidente, Almerina Farias Gama; vice-presidente, Erothilde Ferreira; secretaria geral, Lycia Sobral; 1º secretário, Luiz Mello; 2º secretário, Mariana Ferreira da Silva; 1ª tesoureira, Georgina Coutinho; 2ª tesoureira, Olga Silva; 1º procurador, dr. Theodomiro José de Lima; 2º procurador, Juracy Cardoso. Provavelmente como parte de sua campanha, foi inaugurado o Ginásio Almerinda Gama no dia 18 de fevereiro de 1934. Esse educandário era então dirigido por Laurentino Garrido e estava situado na rua Maria Emília, nº 50, em São João do Meriti. A homenagem à Almerinda ocorreu por sua infatigável agitação das causas do ensino. Em 27 de setembro de 1934, poucos dias antes das eleições, o Jornal do Brasil publicou carta de Almerinda Farias Gama, candidata a deputada federal pela chapa do “Decreto do Direito do Trabalho” respondendo à divulgação do Partido Socialista Proletário do Brasil, que informou ter sido ela excluída de suas fileiras por ter se tornado “propagandista do partido imperialista Master Sistema”. Esclareceu Almerinda que Master Sistema era uma cooperativa de produção e consumo e não um partido, e que o Diretório Central do PSPB não tinha tomado atitude alguma contra ela porque “seria exorbitar de suas finalidades políticas”. Logo após as eleições, quando não conseguiu votação suficiente para se eleger, Almerina passou a se dedicar a várias atividades intelectuais e artísticas.Tinha um emprego estável. Desde 14 de julho de 1933 assumira interinamente a função de escrevente juramentada do 9º Ofício de Notas, onde já era auxiliar a partir de 1931. Em 1º de fevereiro de 1944 foi efetivada no cargo. Em 1935 estabeleceu relações com um engenheiro e com ele teve um filho. Há registro ainda de que em 1939 era professora do Departamento de Educação da Prefeitura do Rio de Janeiro. Em junho de 1940, oferecia nos jornais seus serviços. “Cópias à máquina e mimeógrafo. Traduções. Redações. Português. Francês. Inglês. Espanhol”. No ano seguinte, o anúncio era mais amplo, incluindo a caligrafia. Dividia o ensino com alguém de nome S. Moura e o endereço era a Escola Avalfred, “em frente à Galeria”. A partir de 1942, quando “Zumbi”, sua obra mais conhecida, alcançou sucesso, seu nome começou a aparecer nos jornais sempre envolvido com teatro, poesia, música e livros, a exemplo da sua participação como tesoureira da diretoria do Curso Popular Chiquinha Gonzaga, em 1947. Trabalhou em O Dia na década de 1950, e como jornalista, em 1956, trabalhou para a instalação da Comissão de apoio à Conferência de Mulheres Trabalhadoras, na Associação Brasileira de Imprensa. Com o Golpe Militar de 1964, Almerinda foi perseguida como funcionária pública do Governo da Guanabara. Um inquérito tramitou na Corregedoria. Nessa ação, foram demitidos 33 funcionários, 11 aposentados compulsoriamente. Era o combate à “subversão”. Em 15 de março de 1967, o governador a demitiu. Ainda era a escrevente juramentada do Cartório do 9º Ofício de Notas. Faleceu em 31 de março de 1999, em São Paulo.

bottom of page


