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O silêncio e a espera: 
a dor de Elza Miranda

Seria uma noite tranquila naquele 4 de fevereiro de 1975. O jantar estava pronto, os sobrinhos reunidos, e Elza Miranda esperava Jayme chegar. Mas ele não apareceu. “Ficamos apreensivos, porque ele nunca fazia isso”, lembra ela, em seu depoimento à Comissão da Verdade de Alagoas, em novembro de 2013.  

 

Jayme Miranda era advogado, jornalista e militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Perseguido desde 1964, já havia sido preso outras vezes. Seu nome estava na mira da repressão, e ele sabia dos riscos que corria. “Ele precisava sair da cidade novamente. Ia encontrar alguém para preparar uns documentos pra ele, mas não voltou”, conta Elza em seu depoimento à Comissão Estadual da Verdade de Alagoas.  

 

Nos dias seguintes, ela começou a busca pelo marido. Procurou advogados, enviou cartas a senadores e até ao presidente da República. A resposta era sempre a mesma: diziam que ele havia fugido para a União Soviética. Mas Elza sabia que era mentira.  

 

A repressão tentava arrancar informações. Agentes do regime batiam à sua porta se passando por conhecidos, oferecendo dinheiro e documentos. “Eles queriam saber se eu sabia de algo, mas eu não sabia de nada”, diz. Um deles chegou a invadir o escritório do advogado que a auxiliava, destruindo móveis e documentos.  

 

Sem respostas, sem apoio e rejeitada por parentes que temiam represálias, Elza decidiu voltar para Maceió com os filhos. “Eu estava sozinha, sem trabalho, sem dinheiro. Fiz um curso de cabeleireira e comecei a dar aulas para sustentar minha família.” O mais difícil era lidar com as crianças. “O mais novo me perguntou quando o pai voltaria. Eu disse: ‘Quando você aprender a escrever, pode mandar uma carta para ele.’ Ele aprendeu a ler rápido e falou: ‘Mamãe, já sei ler. Quero escrever para o papai voltar.’ Foi quando precisei contar a verdade.”  

 

Os anos passaram, mas a angústia permaneceu. Em 1992, o ex-sargento do DOI-CODI Marival Chaves afirmou à revista Veja que Jayme foi torturado e morto em São Paulo. O corpo teria sido esquartejado e jogado em um rio. Outra versão aponta que ele teria sido incinerado. Nenhuma das hipóteses foi confirmada.  

 

A família nunca teve um túmulo para chorar. “Queremos encontrar o corpo dele, para enterrá-lo dignamente”, diz Elza. Seu neto, Thiago Miranda, luta para manter viva a memória do avô. “Em Alagoas, os assassinos viram heróis e os verdadeiros heróis são esquecidos.”  

 

O nome de Jayme Miranda hoje batiza a Comissão Estadual da Verdade em Alagoas. Sua história, antes silenciada, é resgatada para que não se esqueça a violência do regime militar. “A ditadura destruiu famílias inteiras”, afirma Elza. “Mas enquanto sua memória for lembrada, Jayme não será apagado.”

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